O que é mais valia

O que é mais-valia?

Tempo de leitura: 8 minutos

A mais-valia é um conceito central da teoria econômica de Karl Marx que descreve a diferença entre o valor gerado pelo trabalho do operário e o salário pago a ele pelo capitalista. Em termos simples, é a parcela do valor produzida pelo trabalhador da qual o dono dos meios de produção se apropria, sendo a base do lucro no sistema capitalista. Compreender esse conceito é fundamental para entender a crítica marxista à exploração e à dinâmica de acumulação de capital.

Frequentemente ocorrem discussões entre esquerdistas e direitistas sobre a natureza da produção. Imposto é roubo ou lucro é roubo? Vamos entrar um pouco mais fundo sobre o que é a natureza do capital segundo Marx, dando foco, desta vez, no que é a mais-valia.

Adam Smith

Primeiramente temos que falar de Adam Smith, considerado por muitos o pai da Economia e um exemplo de liberal. Ele, David Ricardo e alguns outros economistas acreditavam no valor-trabalho. Esta teoria entende que o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho que foi necessário para sua produção. 

Ou seja, se A demora 10 minutos para produzir B demora 100 minutos para produzir C, é de se esperar que C seja dez vezes mais caro que B. Dessa maneira, Smith usou esta teoria inicial para embasar sua teoria do valor no livro A Riqueza das Nações, teoria esta que foi usada por Marx.

Mais Valia de Karl Marx

Nesse contexto, é importante entendermos que Marx entendia que o capital faz com que tudo vire mercadoria. Assim, o capitalista cria uma mercadoria e vende, da mesma forma que o trabalhador tem sua mão-de-obra e vende, sendo esta última vendida como mercadoria.

Sendo assim, para a produção de qualquer mercadoria, o capitalista tira os trabalhadores dos campos e também tira as possibilidades de trabalhar para si mesmo, como fazia no campo sendo um artesão. Agora, ele é obrigado a trabalhar numa fábrica e produzir fazendo uma só função.

Todavia, Marx faz a abstração dessa produção da mercadoria. Podemos ver a produção como resultado da compra de uma mercadoria inicial (insumo), que passa pela fábrica e sai de lá um novo produto. Este é, portanto, o processo D – M – D’, sendo D o dinheiro,  M a mercadoria e D’ o mais-dinheiro, ou seja, o dinheiro valendo mais depois do processo fabril. Mas espera aí! Como foi criado esse valor no dinheiro? Como D virou D’?

Mais-valia

Finalmente, após chegar no produto final, vamos voltar ao inicio da produção fabril. O valor-trabalho preconiza que o valor de uma mercadoria é a quantidade média de tempo necessário para a produção de uma mercadoria. Dessa maneira, vamos imaginar um trabalhador que, ao vender sua mão-de-obra, trabalhe 10 horas num dia. Assim ele trabalhará para produzir, digamos, R$ 1.000,00 para o capitalista. 

O capitalista, por sua vez, para iniciar o processo, precisará gastar com insumos, que, digamos, custe R$ 700,00. Combinando tudo, temos que o capitalista, após pagar  trabalhador e os insumos, tem:  Preço de Venda (R$ 1.000,00) – Salário (R$ 100,00) – Insumos (R$ 700,00) = Mais-Valia (R$ 200,00)

Dessa forma, Marx desenha a produção capitalista para dizer que esses R$ 200,00, o D’, é o mais valor, ou seja, o valor que o produto absorveu no processo de produção. Isto é, o valor que faz D virar D’ é o valor que o trabalhador exerce sobre a mercadoria. 

Portanto, se o trabalhador produziu, em todo o processo, R$ 1.000,00, por que ele recebeu apenas  R$ 100,00? Karl Marx dirá, assim, que esse lucro é roubo, pois ele não foi dado ao trabalhador, verdadeiro criador de valor da produção.

Mais-valia absoluta

Nesse contexto, agora vamos entrar na mais valia firmada na teoria do valor-trabalho. Isto é, podemos entender que se o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho nela, o lucro é parte desse trabalho. 

Imaginemos, pois, um trabalhador que trabalha 10 horas e produz R$ 1.000,00. Ou seja, ele produz R$ 100,00 por hora. Se trabalhasse 20 horas, produziria, ceteris paribus, R$ 2.000,00.

Nesse sentido, o que um capitalista tentará fazer é pagar ao trabalhador sua diária, que é R$ 100,00, mas fazer ele trabalhar mais de 10 horas. Assim, seu custo para produzir a mercadoria continuará sendo de R$ 700,00 (insumo) + R$ 100,00 (salário), mas seu lucro – caso o trabalhador fique por 12 hora na fábrica – R$ 1.200,00 (valor que o trabalhador produziu) – R$ 700,00 (insumo) – R$ 100,00 (salário) =  R$ 400,00. 

Sendo assim, a mais-valia relativa significa, pelas horas de trabalho, conseguir cada vez mais lucro sobre as horas trabalhadas.

Mais-valia relativa

Por outo lado, a mais-valia relativa vai quase que em contrapartida a mais-valia absoluta. Imagine um padeiro que produz, com as próprias mãos, R$ 1.000,00 por dia para o dono da padaria. No entanto, o dono da padaria compra uma máquina que agiliza seu trabalho em 70%. Agora, ele consegue produzir R$ 1.700,00 por dia. 

Dessa maneira, o dono da padaria conseguiu fazer com que seu empregado trabalhasse a mesma quantidade de horas e produzisse 70% mais. A mais-valia relativa, portanto, é o aumento do lucro dos capitalistas com relação aos avanços técnicos e aumento da eficiência.

O que é mais valia relativa e absoluta

Contraponto

Embora a teoria da mais-valia seja muito defendida por algumas escolas econômicas (compartilhada por Marx e, ironicamente, por Adam Smith), ela enfrenta um desafio fundamental proposto pela Revolução Marginalista e pela Escola Austríaca de Economia, escola econômica que bate de frente com a teoria marxista com a teoria do valor subjetivo.

Economistas como Eugen von Böhm-Bawerk argumentaram que o valor de um bem não é determinado pela quantidade de trabalho “congelado” nele, mas sim pela utilidade subjetiva que os consumidores atribuem a esse bem.

O lucro (ou a suposta “mais-valia”) não seria exploração, mas sim um pagamento pelo tempo (daí o conceito de preferência temporal). O capitalista adianta o pagamento ao trabalhador (salário) antes mesmo do produto ser vendido, assumindo o risco da operação e a espera pelo retorno financeiro.

Se o valor fosse apenas trabalho, um produto que ninguém deseja, mesmo que tenha levado 100 horas para ser feito, teria um valor imenso — o que a realidade do mercado refuta diariamente.

Dessa forma, o que Marx chama de exploração, os austríacos definem como uma troca voluntária baseada em preferências temporais distintas e na atribuição de valor por parte do consumidor final.

Conclusão

Entender a mais-valia é como ir ao coração do pensamento econômico do século XIX, assunto debatido até hoje. Seja como uma ferramenta de denúncia contra as desigualdades sociais, como propôs Marx, ou como um conceito baseado em uma teoria do valor que viria a ser contestada por economistas posteriores, sua importância histórica é inegável.

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